5G em Moçambique, o que as bandas do INCM mudam para quem trabalha com telemóveis
Esta lição junta tudo o que viste até aqui e aplica-o ao mercado onde trabalhas. Não é teoria: são decisões que vais ter de tomar ao comprar, vender e aconselhar durante os próximos anos.
O que se passou
Em Abril de 2026 o INCM, o regulador das comunicações, abriu o concurso para o espectro de 5G. Concorreram as três operadoras do país: Tmcel, Vodacom Moçambique e Movitel. As faixas em causa foram 700 MHz, 2.6 GHz e 3.5 GHz. A imprensa do sector noticiou depois a atribuição de licenças às três, tanto para 5G como para alargar o 4G.
Quanto a prazos, o que foi dito publicamente aponta para 5G nas capitais provinciais, nas zonas económicas especiais e nos principais destinos turísticos até 2027, e banda larga em todos os distritos até 2030.
Estes dados vêm de notícias do sector e de declarações públicas. Para condições exactas de licença e calendários oficiais, a fonte a consultar é o próprio INCM. Vale a pena confirmares antes de prometeres datas a um cliente.
Porque é que estas três bandas, e não outras
Agora já tens as ferramentas para ler isto. Não foram escolhidas ao acaso: são três camadas com funções diferentes.
| Banda | Função | O que esperar |
|---|---|---|
| 700 MHz | Cobertura | Vai longe, entra em casa, chega ao mato. Velocidade moderada. |
| 2.6 GHz | Capacidade | Boa velocidade em cidade. Alcance médio. |
| 3.5 GHz | Velocidade | Muita largura de banda. Alcance curto, pára em paredes. |
Os 700 MHz são a banda mais importante para um país com a geografia de Moçambique. Com 43 cm de comprimento de onda, contorna obstáculos e cobre áreas grandes com poucas antenas. Para zonas rurais, onde pôr torres é caro, é a única banda que faz contas.
Os 3.5 GHz são o contrário: dão os números bonitos nos testes de velocidade, mas exigem muitas antenas e praticamente não atravessam betão. É banda de cidade, de centro comercial, de zona turística.
Repara na ligação com o problema real do país. Foi noticiado que cerca de 20,5% dos moçambicanos têm acesso à internet e que o 4G não chega a cerca de um sexto da população. Para essa gente, o que muda a vida não é 5G de 3.5 GHz: é a banda de 700 MHz a levar cobertura decente onde hoje não há nada. A parte menos vistosa do leilão é a que tem mais impacto.
O que isto muda no teu negócio, já
1. Verificar bandas antes de comprar ou vender usados
Este é o ponto que te pode poupar prejuízos a sério.
Um telemóvel só funciona nas bandas que o rádio dele suporta, e isso não se resolve com software. Telemóveis vendidos para o mercado norte-americano, e muitos modelos de mercados asiáticos, não trazem as bandas baixas usadas aqui.
As bandas a confirmar para Moçambique:
| Tecnologia | Bandas a procurar |
|---|---|
| 4G, cobertura | B20 (800), B28 (700), B8 (900) |
| 4G, geral | B1 (2100), B3 (1800), B7 (2600) |
| 5G, cobertura | n28 (700) |
| 5G, capacidade | n78 (3500), n7 / n38 (2600) |
Um telemóvel sem n28 pode ter 5G na Beira ou em Maputo e nada fora das cidades. Um telemóvel sem B20 nem B28 vai ser uma queixa permanente de quem viaja.
Como confirmar: procura a ficha técnica pelo modelo exacto, incluindo o código de variante regional, e confirma a lista de bandas. Dois telemóveis com o mesmo nome comercial podem ter rádios diferentes conforme o mercado. O código de modelo está nas definições e na etiqueta, e é por ele que te deves guiar, não pelo nome da caixa.
Transforma isto num serviço. "Verificação de bandas antes de comprar" é uma coisa que ninguém faz e que evita ao cliente comprar um telemóvel que não presta aqui. Cobra pouco e ganha a confiança toda.
2. Explicar o 5G sem vender ilusões
Vai aparecer-te muita gente a perguntar se vale a pena comprar um telemóvel 5G. A resposta honesta, hoje, é esta: depende de onde a pessoa vive e trabalha.
Se vive e trabalha numa zona que terá cobertura, sim, faz sentido num telemóvel que vai durar anos. Se vive numa zona onde nem 4G decente há, o 5G não lhe traz nada e mais vale pôr o dinheiro em bateria e em bandas baixas.
Além disso, lembra-te da distinção entre 5G ligado a um núcleo 4G e 5G autónomo. As redes começam quase sempre pelo primeiro, e nessa fase o 5G é sobretudo mais velocidade, não a resposta imediata de que se fala nas apresentações. Um cliente que vê 5G no ecrã e velocidade parecida com 4G não tem avaria nenhuma.
3. A banda dos 700 MHz e a televisão
Há aqui um pormenor técnico que pode dar-te trabalho e que quase ninguém antecipa. A faixa dos 700 MHz era usada por televisão terrestre em muitos países, e é libertada para telecomunicações no processo a que se chama dividendo digital.
Quando a rede móvel entra nessa faixa, aparelhos de televisão e amplificadores de antena antigos, mal filtrados, podem começar a apanhar interferência. O sintoma é televisão a falhar em casas perto de antenas novas. A solução costuma ser um filtro na entrada da antena de televisão.
Se souberes reconhecer isto, tens um serviço novo que ninguém na tua zona está a oferecer, e que vai aparecer à medida que a rede for sendo ligada.
4. Mais antenas quer dizer mais clientes com perguntas
Quando entram antenas novas, o cenário de rádio muda. Algumas casas passam a estar no meio de duas células com força parecida, o que, como viste na lição anterior, dá sinal forte com internet má. Vai haver clientes a dizer que "depois de porem a antena nova ficou pior".
Com RSRP, RSRQ e SINR consegues mostrar o que se passa e explicar que mudar de sítio dentro de casa, ou fixar o telemóvel numa banda, resolve. Isto é diagnóstico, não é reparação, e é exactamente o tipo de coisa que te distingue.
As três operadoras
Segundo dados da GSMA relativos a 2025, a Vodacom Moçambique tinha cerca de 52% das ligações móveis, o Movitel cerca de 32% e a Tmcel cerca de 16%.
Isto interessa-te por uma razão prática: a cobertura não é igual entre elas, e varia muito de distrito para distrito. Quando um cliente se queixa de rede, uma das perguntas úteis é com que operadora, porque a resposta certa pode ser simplesmente outra operadora naquela zona.
Vale a pena teres, na tua oficina, um cartão de cada uma das três. Custa pouco e permite-te testar a sério, em vez de dar palpites. Com três cartões e um telemóvel de referência, respondes em dois minutos a uma pergunta que de outra forma seria um palpite.
O que não vale a pena acreditar
- Software que "activa" bandas. Não existe. O rádio ou tem o circuito daquela banda ou não tem.
- Aplicações que "aumentam o sinal". Não aumentam nada. O que algumas fazem é forçar uma nova procura de rede, que às vezes ajuda por acaso.
- 5G que faz mal à saúde. As potências e as frequências em causa estão dentro dos limites internacionais e são não ionizantes. Se um cliente trouxer o assunto, responde com calma e sem gozar, que a dúvida é legítima mesmo quando a resposta é tranquilizadora.
- Amplificadores de sinal vendidos a peso. Repetidores mal instalados atrapalham a rede e, em muitos países, precisam de autorização. Antes de vender ou instalar um, confirma as regras do INCM.
A seguir
Já tens a rede do lado de fora. Nas próximas lições entramos no que acontece dentro dela quando ligas o telemóvel, e na parte da profissão que te protege: o que é legal, o que não é, e onde está a linha que não se passa.









