Medir a rede da tua cidade e publicar os dados, o método de quem quer ser levado a sério
Toda a gente tem uma opinião sobre a rede: "a Vodacom é melhor no centro", "o Movitel pega mais no bairro", "a Tmcel cai sempre na estrada". Quase ninguém tem números. As operadoras têm, mas guardam-nos. O regulador tem os dele. Dados independentes, medidos no terreno e publicados com método, praticamente não existem.
Isso é uma oportunidade. Quem os publica, com cuidado e com honestidade, passa a ser citado. Esta lição mostra como fazer, só com um telemóvel Android, e sem precisar de autorização de ninguém.
Porque é legal e porque é útil
Medir o sinal que chega ao teu telemóvel é passivo: estás a ler o que a antena já está a emitir para toda a gente. Não emites nada, não interferes com nada, não entras em lado nenhum. É o mesmo que o teu telemóvel faz o dia todo, só que guardado num ficheiro.
E é útil para muita gente: para o comprador que quer saber que operadora escolher para a casa nova, para a escola que precisa de internet, para a empresa que vai abrir um armazém, para a câmara municipal, e para a própria operadora, que fica a saber onde a rede está fraca.
O que precisas
- Um telemóvel Android, sempre o mesmo durante o estudo. Telemóveis diferentes medem diferente, e misturá-los estraga a comparação.
- Uma aplicação de medição que grave em ficheiro o tempo, a posição GPS, a operadora, a tecnologia, a banda, o Cell ID, o RSRP, o RSRQ e o SINR. Há várias, por exemplo G-NetTrack Lite ou Network Cell Info. Escolhe uma que exporte para CSV ou KML.
- Um cartão de cada operadora que queiras comparar.
- Um mapa gratuito para mostrar os resultados, como o uMap, feito sobre o OpenStreetMap, ou o Google My Maps.
O método, para os números valerem alguma coisa
A diferença entre uma medição que se cita e uma que se ignora está toda aqui.
- Define as rotas antes de sair. As mesmas ruas para todas as operadoras. Se mediste uma operadora no centro e outra no bairro, não comparaste nada.
- Fixa a tecnologia. Para comparar 4G, põe o telemóvel em "só 4G" (LTE). Senão ele salta para 3G ou 2G e mistura tudo.
- Mede devagar. A pé ou de carro a baixa velocidade. Um ponto a cada 5 a 10 segundos chega.
- Telemóvel sempre na mesma posição. Na mão, à altura do peito, ou num suporte. Dentro de uma mochila ou de um bolso mede outra coisa.
- Repete a horas diferentes. O RSRP muda pouco ao longo do dia; o RSRQ e a velocidade mudam muito, por causa da lotação das células. Mede de manhã, à hora de ponta e à noite.
- Pelo menos três passagens por cada rota. Um valor isolado não diz nada.
- Anota tudo o que pode afectar os números: modelo do telemóvel, versão do Android, data, hora, tempo que fazia, e se foi a pé ou de carro.
Como apresentar sem enganar ninguém
Usa sempre os mesmos patamares, e diz quais são:
| Cor no mapa | RSRP | Na prática |
|---|---|---|
| Verde | Melhor que -90 dBm | Tudo funciona bem |
| Amarelo | -90 a -105 dBm | Funciona, mais lento |
| Laranja | -105 a -115 dBm | Fraco, quedas |
| Vermelho | Pior que -115 dBm, ou sem rede | Pouco utilizável |
E segue estas regras, que são as que separam um estudo de uma queixa:
- Diz o que mediste e o que não mediste. "Medições de RSRP em 4G, com um telemóvel X, em 12 ruas do centro, em Outubro." Não generalizes para a cidade toda a partir de 12 ruas.
- Separa cobertura de capacidade. Sinal fraco é cobertura. Sinal forte com internet lenta à hora de ponta é capacidade. São problemas diferentes, com soluções diferentes.
- Mostra também onde a rede está boa. Um mapa só com vermelho parece um ataque, não um estudo.
- Não publiques dados pessoais. Nem o teu IMSI, nem fotografias de pessoas ou de casas identificáveis. O mapa é da rede, não de quem lá vive.
Antes de publicar, manda à operadora
Este é o passo que muda tudo. Antes de pores o mapa no site ou nas redes, manda os resultados às operadoras em causa, com o método. Diz que vais publicar e pergunta se têm alguma observação.
Três coisas podem acontecer, e todas são boas. A operadora corrige um erro teu, e o teu estudo fica mais sólido. A operadora explica que já há obras previstas, e passas a ter uma informação que mais ninguém tem. Ou a operadora não responde, e publicas na mesma, dizendo que lhe deste a palavra primeiro.
Em qualquer dos casos, passas a ser alguém com quem as operadoras falam, em vez de alguém que fala delas.
Uma ideia para começar já
Escolhe três zonas que conheças bem: o centro, um bairro residencial e uma estrada de saída da cidade. Mede as três operadoras em 4G, três vezes cada, durante uma semana. No fim tens uma tabela com nove linhas e um mapa.
Publica isso como "Estado da rede móvel em Quelimane, Outubro de 2026, primeira medição", com o método por baixo. Repete daqui a seis meses. Ao fim de um ano tens uma série de dados que ninguém mais tem, e uma razão para jornalistas, escolas, empresas e as próprias operadoras te procurarem.
Partilhar com o mundo
Existem bases de dados abertas de antenas, construídas por voluntários de todo o mundo. A maior é o OpenCelliD, com dados de licença livre. Há aplicações de código aberto, como o Tower Collector, que gravam as células que o teu telemóvel vê e as enviam para lá. Moçambique tem poucos dados nestas bases, por isso cada medição tua conta.
Isto não é um passatempo. É o tipo de trabalho que separa quem repara telemóveis de quem percebe de redes, e é precisamente a mistura das duas coisas que te torna difícil de substituir.









