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Frequência e banda, porque 700 MHz entra em casa e 3.5 GHz fica à porta

Administrador  ·  22/10/2026
Frequência e banda, porque 700 MHz entra em casa e 3.5 GHz fica à porta
Foto: Giacomo Alessandroni, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons

Esta é a lição que explica metade das queixas de sinal que ouves. Quando perceberes porque é que umas frequências atravessam paredes e outras não, deixas de precisar de adivinhar.

Frequência e comprimento de onda

Uma onda de rádio é uma vibração que viaja à velocidade da luz. A frequência diz quantas vezes ela vibra por segundo. Um hertz é uma vez por segundo, um megahertz é um milhão de vezes, um gigahertz é mil milhões.

O comprimento de onda é o espaço que a onda ocupa em cada vibração completa. Calcula-se com uma conta fácil de guardar: 300 dividido pela frequência em MHz dá o comprimento de onda em metros.

Frequência Comprimento de onda Onde se usa
700 MHz 43 cm Cobertura larga, 4G e 5G
900 MHz 33 cm 2G clássico, cobertura rural
1800 MHz 17 cm 2G e 4G, muito usada
2100 MHz 14 cm 3G e 4G
2600 MHz 11,5 cm Capacidade em cidade
3500 MHz 8,5 cm 5G de banda média
26 GHz 1,2 cm 5G de ondas milimétricas

Repara: frequência alta quer dizer onda curta. Guarda isto, porque é daqui que vem tudo o resto.

Porque a onda curta não atravessa

Quanto mais curta a onda, mais ela se comporta como luz. Pára em obstáculos, reflecte-se e faz sombra. Quanto mais longa, mais ela contorna as coisas.

Pensa no som, que é a mesma física. Quando há música na casa ao lado, o que te chega é o grave, o bombo. Os agudos ficam retidos pela parede. O grave é onda longa e contorna, o agudo é onda curta e não.

No rádio é igual. Os 700 MHz são o grave da rede móvel: entram em casa, descem para a cave, passam pela vegetação. Os 3.5 GHz são o agudo: dão muita velocidade onde há linha de vista, e morrem numa parede de betão.

Há ainda a perda do próprio ar, que aumenta com a frequência. Para a mesma potência e a mesma distância, uma onda mais alta chega mais fraca, mesmo sem obstáculo nenhum.

Então porque não usamos só frequências baixas?

Porque o espaço em baixo é pequeno e já está todo ocupado.

A largura de banda é o espaço que tens para trabalhar, e é ela que decide a velocidade. Lá em baixo, nos 700 e 900 MHz, cabem uns poucos megahertz de largura, e estão disputados entre operadoras, televisão e outros serviços. Lá em cima, nos 3.5 GHz, há 100 MHz de largura com relativa facilidade.

Daí a regra que resume o negócio todo das operadoras:

Frequência baixa cobre muito e transporta pouco. Frequência alta cobre pouco e transporta muito.

Por isso ninguém escolhe uma. Usam-se as duas ao mesmo tempo, em camadas. A banda baixa faz a cobertura e garante que há rede. A banda alta faz a capacidade onde há gente. O teu telemóvel anda a saltar entre camadas conforme onde está, e por isso é que a velocidade muda tanto dentro da mesma cidade.

Uplink e downlink, os dois sentidos

A ligação tem dois sentidos e não são iguais. Downlink é a antena a falar para o telemóvel. Uplink é o telemóvel a falar para a antena.

O uplink é sempre o lado fraco. A antena da operadora tem dezenas de watts e fica alta; o teu telemóvel tem uma fracção de watt e está no teu bolso. É por isso que às vezes recebes bem e o outro lado não te ouve.

Há duas maneiras de arrumar os dois sentidos:

  • FDD, cada sentido na sua frequência, a falar ao mesmo tempo. É o clássico.
  • TDD, os dois sentidos na mesma frequência, cada um na sua vez, alternando muito depressa. É o que se usa em 3.5 GHz.

O TDD permite dar mais tempo ao download do que ao upload, que é o que as pessoas usam mais. É também por isso que em 5G de banda média o upload costuma ser proporcionalmente mais fraco.

Números de banda, a parte que confunde

Em vez de dizer "1800 MHz com 75 MHz de separação entre sentidos", o sector dá um número a cada arranjo. É a banda.

Banda Frequência Notas
B1 2100 MHz Muito usada em 4G
B3 1800 MHz Das mais comuns do mundo
B7 2600 MHz Capacidade em cidade
B8 900 MHz Cobertura, vem do 2G
B20 800 MHz Cobertura, comum na Europa e África
B28 700 MHz Cobertura, a banda do momento
n78 3500 MHz 5G de banda média

As bandas 5G levam um "n" à frente. Uma banda com o mesmo número em 4G e em 5G é a mesma frequência, só muda a tecnologia que lá corre.

E aqui está o problema que te vai aparecer na oficina: um telemóvel só funciona nas bandas que o seu rádio suporta. Não é coisa que se resolva com software, nem com firmware, nem com nada. O filtro e o amplificador para aquela banda ou existem na placa ou não existem.

Um telemóvel comprado nos Estados Unidos, ou numa região da Ásia, pode não ter a B20 nem a B28. Em Moçambique isso traduz-se em ter rede na cidade e ficar sem nada mal se sai dela, porque a cobertura larga vive precisamente nas bandas baixas.

Os dois números que explicam a velocidade

Quando alguém pergunta porque é que a internet está lenta, há só duas coisas a verificar.

Largura de banda. Quanto espaço tens. Uma célula com 20 MHz de largura tem o dobro do tecto de uma com 10 MHz, com tudo o resto igual.

Eficiência. Quantos bits consegues enfiar em cada hertz, e isso depende da qualidade do sinal. Com sinal limpo, a rede usa um código denso e passa muita informação. Com sinal sujo, usa um código grosseiro e passa pouca.

Velocidade é, grosso modo, estes dois multiplicados. É por isso que te podes sentar debaixo da antena e ter velocidade fraca, se a célula só tiver pouca largura. E é por isso que podes ter um sinal cheio de barras e internet má: as barras mostram potência, não qualidade, e também não mostram quanta gente está a dividir aquilo contigo.

O que isto muda na bancada

  • Antes de vender ou aceitar um telemóvel importado, confirma as bandas. É o erro mais caro que se faz com usados.
  • Cliente que tem rede na cidade e perde no mato: começa por suspeitar de falta de banda baixa, não de avaria.
  • Cliente com 5G mas com upload fraco: é o normal em TDD, não é defeito.
  • Barras cheias e internet má: é qualidade ou é lotação da célula, não é potência.
  • Nenhum software acrescenta bandas a um telemóvel. Quem promete isso está a mentir.

A seguir

Agora que sabes o que é a frequência, falta saber medir a força do sinal. A próxima lição é sobre dBm e dB, que é a linguagem com que os técnicos de rede falam de potência.

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