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IMEI, IMSI, ICCID e Ki, os quatro números e o que cada um protege

Administrador  ·  22/10/2026
IMEI, IMSI, ICCID e Ki, os quatro números e o que cada um protege
Foto: Raimond Spekking, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons

Há quatro números envolvidos sempre que um telemóvel se liga a uma rede. Muita gente trata-os como se fossem a mesma coisa e é daí que vem quase toda a confusão sobre bloqueios, roubos e desbloqueios.

A regra que arruma tudo é esta: dois identificam o aparelho e dois identificam o cliente. Se guardares só isto, já ficas à frente de muita gente.

Número Identifica Onde vive Muda?
IMEI O aparelho No telemóvel Não, e mexer nele é crime
ICCID O cartão SIM No cartão Só trocando de cartão
IMSI O cliente na rede No cartão Só trocando de cartão
Ki O segredo do cliente No cartão e na operadora Nunca sai de nenhum dos dois

IMEI, o número do aparelho

O IMEI tem 15 dígitos e identifica o aparelho em si, não quem o usa. Vês o teu marcando:

*#06#

A estrutura é simples:

  • Os primeiros 8 dígitos são o TAC, Type Allocation Code. Dizem a marca e o modelo.
  • Os 6 seguintes são o número de série daquele aparelho.
  • O último é um dígito de controlo, calculado pelo algoritmo de Luhn.

O dígito de controlo serve para apanhar enganos a escrever. Faz-se assim: da direita para a esquerda, sem contar o último, dobra-se um dígito sim outro não. Se o resultado de dobrar passar de 9, somam-se os dois algarismos. Soma-se tudo e o dígito de controlo é o que falta para chegar à dezena seguinte.

Na prática, serve-te para uma coisa muito concreta: se alguém te dá um IMEI por escrito e ele não passa esta conta, não é um IMEI de verdade. Pode ser um engano a copiar, ou pode ser inventado.

Um telemóvel com dois cartões tem dois IMEI, um por cada rádio. É normal e não é sinal de nada.

Porque o IMEI é intocável

O IMEI é a base das listas de aparelhos roubados. Quando alguém participa um furto, a operadora pode pôr aquele IMEI numa lista negra, e os aparelhos nessa lista deixam de ser aceites nas redes que a consultam.

Mudar o IMEI de um aparelho é crime em Moçambique e na esmagadora maioria dos países, e a razão é óbvia quando se pensa um segundo: só serve para fazer circular aparelhos roubados. Não há motivo legítimo para o fazer, nem sequer "para reparar", porque um aparelho com problemas de IMEI tem de ir pela via do fabricante ou da operadora.

Isto também te protege a ti. Uma oficina que mexe em IMEI arrisca-se a responder criminalmente e a ficar ligada a aparelhos roubados. Recusar esse serviço não é perder dinheiro, é não comprar um problema.

ICCID, o número do cartão

O ICCID é o número gravado no próprio plástico do cartão SIM, normalmente com 19 ou 20 dígitos, e muitas vezes impresso no cartão. Identifica o cartão como objecto, não a pessoa.

Começa por 89, que é o código reservado às telecomunicações, seguido do código do país e de um código da operadora que o emitiu.

Na prática serve para a operadora saber de que lote veio o cartão e tratar de substituições. Para ti, serve para confirmar que um cartão é mesmo daquela operadora e daquele país.

IMSI, o número do cliente

O IMSI é quem tu és para a rede. Tem até 15 dígitos e começa, como já viste na lição anterior, pelo MCC e pelo MNC. O resto é o número do assinante dentro daquela operadora.

Repara numa coisa que confunde muita gente: o teu número de telefone não é o IMSI. São coisas separadas. O número de telefone é uma etiqueta comercial que a operadora associa ao teu IMSI, e por isso é que podes mudar de número mantendo o cartão, ou levar o teu número para outra operadora.

Porque o IMSI quase não anda no ar

Se o IMSI fosse dito em voz alta sempre que o telemóvel liga, qualquer pessoa com um receptor podia seguir uma pessoa pela cidade. Por isso a rede dá-lhe, logo que pode, um nome temporário, o TMSI, que vai mudando. O IMSI verdadeiro só aparece quando mesmo não há outra hipótese.

Esta foi, durante anos, uma fraqueza conhecida do 2G e do 4G, aproveitada por equipamentos que forçavam o telemóvel a dizer o IMSI. O 5G fechou esse buraco: o identificador permanente vai cifrado com a chave pública da operadora, e só ela o consegue abrir.

Ki, o segredo que nunca sai do cartão

O Ki é uma chave secreta gravada no cartão SIM no momento em que ele é fabricado. A operadora guarda uma cópia. Nunca, em circunstância nenhuma, o Ki é transmitido pelo ar.

Então como é que a rede confirma que o cartão é verdadeiro sem nunca lhe pedir o segredo? Com um desafio.

  1. A rede manda um número ao acaso para o cartão.
  2. O cartão faz uma conta com esse número e com o Ki, lá dentro, e devolve só o resultado.
  3. A rede faz a mesma conta com a cópia do Ki que tem.
  4. Se os dois resultados baterem certo, o cartão é autêntico.

O segredo nunca saiu de nenhum dos lados. Quem estiver a ouvir só apanha um número ao acaso e um resultado, e com isso não consegue chegar ao Ki. Esta ideia é das mais elegantes das telecomunicações, e está na base de tudo desde 1991.

Do 3G em diante passou a ser nos dois sentidos: o cartão também confirma que a rede é verdadeira. Isso serve para o telemóvel não se agarrar a uma antena falsa montada por alguém.

É também por isso que clonar um cartão SIM moderno não é coisa que se faça. O que existe e é real é a fraude de troca de cartão, o chamado SIM swap, em que alguém convence a operadora a emitir uma segunda via do cartão em nome de outra pessoa. Isso não é um ataque técnico ao cartão, é um ataque ao atendimento.

Como estes quatro se juntam quando ligas o telemóvel

  1. O telemóvel liga e procura redes. Lê o PLMN que as antenas anunciam.
  2. Escolhe a rede do cartão, ou uma de roaming se não houver.
  3. Pede registo, identificando-se com um nome temporário se já tiver, ou com o IMSI se for preciso.
  4. A rede manda o desafio. O cartão responde com a conta feita com o Ki.
  5. A rede confirma e liga a cifra.
  6. Conforme a rede e o país, pode ser verificado o IMEI contra a lista de aparelhos bloqueados.
  7. O telemóvel fica registado e aparece o nome da operadora no ecrã.

Tudo isto em dois ou três segundos.

Diagnóstico, com os quatro números na mão

Sintoma Leitura provável
Cartão não é reconhecido em nenhum telemóvel Cartão estragado. Segunda via na operadora.
Um cartão funciona, outro não, no mesmo telemóvel Leitor do cartão, ou bloqueio de operadora
Todos os cartões falham só neste telemóvel Leitor, ou secção de rádio, ou baseband
Regista mas só faz chamadas de emergência Autenticação a falhar, ou IMEI bloqueado, ou bloqueio de operadora
*#06# não mostra IMEI, ou mostra zeros Problema sério de software ou de memória. Caso para o fabricante.
IMEI não passa a conta de controlo Não confies nesse número nem nesse aparelho

Antes de aceitar um aparelho na bancada

Marca *#06# e compara o IMEI do ecrã com o da etiqueta e o da caixa. Se não baterem certo, pára aí e pergunta. Esta verificação leva dez segundos e evita que mexas num aparelho de origem duvidosa.

Não é desconfiar do cliente, é um hábito de profissional. Com o tempo, as pessoas percebem que na tua oficina as coisas são feitas direitas, e isso traz mais trabalho do que qualquer anúncio.

A seguir

Já viste que o cartão SIM é um computador pequeno com um segredo lá dentro. Na próxima lição abrimos esse cartão por dentro, até ao eSIM e ao iSIM, que mudam a forma de trabalhar.

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