IMEI, IMSI, ICCID e Ki, os quatro números e o que cada um protege
Há quatro números envolvidos sempre que um telemóvel se liga a uma rede. Muita gente trata-os como se fossem a mesma coisa e é daí que vem quase toda a confusão sobre bloqueios, roubos e desbloqueios.
A regra que arruma tudo é esta: dois identificam o aparelho e dois identificam o cliente. Se guardares só isto, já ficas à frente de muita gente.
| Número | Identifica | Onde vive | Muda? |
|---|---|---|---|
| IMEI | O aparelho | No telemóvel | Não, e mexer nele é crime |
| ICCID | O cartão SIM | No cartão | Só trocando de cartão |
| IMSI | O cliente na rede | No cartão | Só trocando de cartão |
| Ki | O segredo do cliente | No cartão e na operadora | Nunca sai de nenhum dos dois |
IMEI, o número do aparelho
O IMEI tem 15 dígitos e identifica o aparelho em si, não quem o usa. Vês o teu marcando:
*#06#
A estrutura é simples:
- Os primeiros 8 dígitos são o TAC, Type Allocation Code. Dizem a marca e o modelo.
- Os 6 seguintes são o número de série daquele aparelho.
- O último é um dígito de controlo, calculado pelo algoritmo de Luhn.
O dígito de controlo serve para apanhar enganos a escrever. Faz-se assim: da direita para a esquerda, sem contar o último, dobra-se um dígito sim outro não. Se o resultado de dobrar passar de 9, somam-se os dois algarismos. Soma-se tudo e o dígito de controlo é o que falta para chegar à dezena seguinte.
Na prática, serve-te para uma coisa muito concreta: se alguém te dá um IMEI por escrito e ele não passa esta conta, não é um IMEI de verdade. Pode ser um engano a copiar, ou pode ser inventado.
Um telemóvel com dois cartões tem dois IMEI, um por cada rádio. É normal e não é sinal de nada.
Porque o IMEI é intocável
O IMEI é a base das listas de aparelhos roubados. Quando alguém participa um furto, a operadora pode pôr aquele IMEI numa lista negra, e os aparelhos nessa lista deixam de ser aceites nas redes que a consultam.
Mudar o IMEI de um aparelho é crime em Moçambique e na esmagadora maioria dos países, e a razão é óbvia quando se pensa um segundo: só serve para fazer circular aparelhos roubados. Não há motivo legítimo para o fazer, nem sequer "para reparar", porque um aparelho com problemas de IMEI tem de ir pela via do fabricante ou da operadora.
Isto também te protege a ti. Uma oficina que mexe em IMEI arrisca-se a responder criminalmente e a ficar ligada a aparelhos roubados. Recusar esse serviço não é perder dinheiro, é não comprar um problema.
ICCID, o número do cartão
O ICCID é o número gravado no próprio plástico do cartão SIM, normalmente com 19 ou 20 dígitos, e muitas vezes impresso no cartão. Identifica o cartão como objecto, não a pessoa.
Começa por 89, que é o código reservado às telecomunicações, seguido do código do país e de um código da operadora que o emitiu.
Na prática serve para a operadora saber de que lote veio o cartão e tratar de substituições. Para ti, serve para confirmar que um cartão é mesmo daquela operadora e daquele país.
IMSI, o número do cliente
O IMSI é quem tu és para a rede. Tem até 15 dígitos e começa, como já viste na lição anterior, pelo MCC e pelo MNC. O resto é o número do assinante dentro daquela operadora.
Repara numa coisa que confunde muita gente: o teu número de telefone não é o IMSI. São coisas separadas. O número de telefone é uma etiqueta comercial que a operadora associa ao teu IMSI, e por isso é que podes mudar de número mantendo o cartão, ou levar o teu número para outra operadora.
Porque o IMSI quase não anda no ar
Se o IMSI fosse dito em voz alta sempre que o telemóvel liga, qualquer pessoa com um receptor podia seguir uma pessoa pela cidade. Por isso a rede dá-lhe, logo que pode, um nome temporário, o TMSI, que vai mudando. O IMSI verdadeiro só aparece quando mesmo não há outra hipótese.
Esta foi, durante anos, uma fraqueza conhecida do 2G e do 4G, aproveitada por equipamentos que forçavam o telemóvel a dizer o IMSI. O 5G fechou esse buraco: o identificador permanente vai cifrado com a chave pública da operadora, e só ela o consegue abrir.
Ki, o segredo que nunca sai do cartão
O Ki é uma chave secreta gravada no cartão SIM no momento em que ele é fabricado. A operadora guarda uma cópia. Nunca, em circunstância nenhuma, o Ki é transmitido pelo ar.
Então como é que a rede confirma que o cartão é verdadeiro sem nunca lhe pedir o segredo? Com um desafio.
- A rede manda um número ao acaso para o cartão.
- O cartão faz uma conta com esse número e com o Ki, lá dentro, e devolve só o resultado.
- A rede faz a mesma conta com a cópia do Ki que tem.
- Se os dois resultados baterem certo, o cartão é autêntico.
O segredo nunca saiu de nenhum dos lados. Quem estiver a ouvir só apanha um número ao acaso e um resultado, e com isso não consegue chegar ao Ki. Esta ideia é das mais elegantes das telecomunicações, e está na base de tudo desde 1991.
Do 3G em diante passou a ser nos dois sentidos: o cartão também confirma que a rede é verdadeira. Isso serve para o telemóvel não se agarrar a uma antena falsa montada por alguém.
É também por isso que clonar um cartão SIM moderno não é coisa que se faça. O que existe e é real é a fraude de troca de cartão, o chamado SIM swap, em que alguém convence a operadora a emitir uma segunda via do cartão em nome de outra pessoa. Isso não é um ataque técnico ao cartão, é um ataque ao atendimento.
Como estes quatro se juntam quando ligas o telemóvel
- O telemóvel liga e procura redes. Lê o PLMN que as antenas anunciam.
- Escolhe a rede do cartão, ou uma de roaming se não houver.
- Pede registo, identificando-se com um nome temporário se já tiver, ou com o IMSI se for preciso.
- A rede manda o desafio. O cartão responde com a conta feita com o Ki.
- A rede confirma e liga a cifra.
- Conforme a rede e o país, pode ser verificado o IMEI contra a lista de aparelhos bloqueados.
- O telemóvel fica registado e aparece o nome da operadora no ecrã.
Tudo isto em dois ou três segundos.
Diagnóstico, com os quatro números na mão
| Sintoma | Leitura provável |
|---|---|
| Cartão não é reconhecido em nenhum telemóvel | Cartão estragado. Segunda via na operadora. |
| Um cartão funciona, outro não, no mesmo telemóvel | Leitor do cartão, ou bloqueio de operadora |
| Todos os cartões falham só neste telemóvel | Leitor, ou secção de rádio, ou baseband |
| Regista mas só faz chamadas de emergência | Autenticação a falhar, ou IMEI bloqueado, ou bloqueio de operadora |
| *#06# não mostra IMEI, ou mostra zeros | Problema sério de software ou de memória. Caso para o fabricante. |
| IMEI não passa a conta de controlo | Não confies nesse número nem nesse aparelho |
Antes de aceitar um aparelho na bancada
Marca *#06# e compara o IMEI do ecrã com o da etiqueta e o da caixa. Se não baterem certo, pára aí e pergunta. Esta verificação leva dez segundos e evita que mexas num aparelho de origem duvidosa.
Não é desconfiar do cliente, é um hábito de profissional. Com o tempo, as pessoas percebem que na tua oficina as coisas são feitas direitas, e isso traz mais trabalho do que qualquer anúncio.
A seguir
Já viste que o cartão SIM é um computador pequeno com um segredo lá dentro. Na próxima lição abrimos esse cartão por dentro, até ao eSIM e ao iSIM, que mudam a forma de trabalhar.









